ABARÉ VOLTA A SER NOTÍCIA NO CENÁRIO NACIONAL. O ALCAIDE-MOR DE ABARÉ POR WALTER ARAÚJO

01/03/2014 10:10

                                                                                              O alcaide-mor de Abaré

                                                                       

 

              Abaré, para quem não sabe - e ninguém tem obrigação de saber - é um município do sertão da Bahia, nos confins do semiárido nordestino. A sede, aconchegante e bela, debruçada à margem direita do São Francisco recebe, diuturnamente, as bênçãos do padroeiro Santo Antonio, quiçá o mais insuspeito defensor dos destinos do seu povo.

              E para completar o cenário, a cidade ainda abriga a casa onde viveu o músico e poeta José Amâncio Filho, “Meu Mano”, honra e glória de Abaré.  

              Lá, como em todo o Nordeste, ainda proliferam chefes políticos fortes, centralizadores, idiossincráticos. Até parece que o município herdou o estilo de Garcia D’Ávila, colono e latifundiário, criador de gado trazido do africano Cabo Verde e parente muito próximo de Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, que lhe entregou enormes sesmarias, inclusive na região do São Francisco e, neste contexto, estava o território do futuro município de Abaré.

              A história do retro aludido alcaide-mor de Abaré começa com Josino Soares da Silva, senhor modesto, inteligente e educado, que muito ajudou o povoado de Icozeira, seu reduto eleitoral e sentimental e foi prefeito de Abaré (1983-1988). Então, a partir daí, surgiu outra liderança: o filho de Josino, Delísio Oliveira da Silva, que captou muito bem os ensinamentos do pai, entrou na política e se tornou líder respeitável.

              O doutor Delísio foi prefeito, andou por aí assumindo cargo no Estado e até prestou assessoria à Prefeitura de Chorrochó, também no sertão, na administração do prefeito José Juvenal de Araújo. Outra vez foi guindado à Prefeitura de Abaré e, hoje, dizem as más línguas – e as boas também – que comanda o município, embora tenha lá um prefeito, Benedito Pedro da Cruz, que o povo colocou para governar. Mas a cruz do Benedito deve ser muito pesada e ele pediu para Delísio ajudar a carregá-la. E Delísio está lá, secretariando-o, governando e carregando a cruz, que não deve ser tão pesada assim. É uma espécie de secretário plenipotenciário, generoso e prestativo para alguns, ditatorial para outros.

              Contudo, o certo é que a classe política vem passando por um longo período de declínio do seu prestígio, maculada por inúmeros casos de corrupção e acusada de outros tais, mesmo no terreno das suposições. Mas o fato é que o desgaste é grande e generalizado, faz parte do imaginário popular e quem era exceção passou também a ser regra, o que é muito ruim para o soerguimento moral dos políticos.     

              Em Abaré não é diferente com seus políticos, muitos com reconhecidas contribuições prestadas à causa do povo. E o senhor Delísio Oliveira da Silva, líder de sua gente - ou de parte dela - enfrentou turbulências consideráveis, mormente em seu último mandato, mas mesmo assim, dizem, continua mandando na Prefeitura ao estilo dos antigos “coronéis” nordestinos, mas ele não gosta dessa alcunha de “coronel”.   

              Nestes tempos de jornalismo investigativo, surgem assuntos demais, acusações demais, que até fica difícil filtrá-las e separar o joio do trigo. Nunca se precisou de tanta cautela como agora.  

E hoje os políticos devem desconfiar até de mendigo pedindo esmola e de andarilho zanzando nas calçadas. Pode ser um jornalista disfarçado, escarafunchando cestas de lixo em busca de deslizes e provas. Microfones e microcâmaras são inimigos perigosos, armas demolidoras.   

Em data recente, uma víbora do jornalismo investigativo esteve no município de Abaré. Ainda não está muito claro o que pretendia. Certamente não procurava o afagar da brisa do entardecer do São Francisco, tampouco o cantar dos pássaros dos povoados, caatingas e fazendas. Todavia, pelo menos é assunto pra muito tempo, até para as próximas campanhas eleitorais.   

              Toda cidade do Nordeste tem seu alcaide-mor, mesmo sem mandato. É o caso de Abaré, onde o “prefeito” Delísio dá as cartas e faz as regras do jogo.  

 

                araujo-costa@uol.com.br

 

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Fonte: Blog de Walter


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