História de Chorrochó: Padre Ulisses Mônaco da Conceição

25/01/2015 14:54

 Para ser o semeador de que nos falam os evangelistas é preciso, dentre outros atributos, crer na imortalidade da alma.

               Para “retemperar o ânimo dos que se dão por vencidos precocemente”, como dizia Raul Pompéia, é necessário, sobretudo, embevecer-se na fé.

          E para prosseguir no caminho do sacerdócio, é seguramente imprescindível uma inflexível lealdade aos princípios de humildade inerentes à condição de apóstolo.

                 Conheci o padre Ulisses Mônico da Conceição no início de 1971, em Chorrochó, quando este escrevinhador era estudante do então Colégio Normal São José, um feito do líder Dorotheu Pacheco de Menezes junto à Campanha Nacional de Escolas da Comunidade (CNEC). A tendência para a observação, própria dos jovens, deu-me a convicção de que se tratava de uma extraordinária figura humana. O tempo se encarregou de provar-me isto.  

                  Os jovens daquele tempo tinham grande respeito pelo vigário da paróquia, líder religioso devotado à família e aos princípios da igreja. A postura respeitosa do padre Conceição dava o parâmetro para que todos nós o entendêssemos como um líder de elevada envergadura moral.

                  Lembro suas andanças, passos largos e seguros, pelas calçadas de Chorrochó. Muito presente na vida da comunidade, era atencioso, solícito, contemporizador. Dono de uma memória prodigiosa e de uma apreensão fulminante. Atendia a todos que o abordavam. No trato com os adultos criava um ambiente seguro, como se um amparo à pequenez dos fracos. No contato com os jovens, transmitia-lhes uma auréola de esperança necessária à sede de absoluto da adolescência. A experiência retratava-se nos cabelos homogeneamente brancos, tingidos pelo tempo.

                  Não é possível falar do padre Conceição sem associá-lo às tradições de Chorrochó. O sertão é, ainda, uma universidade de costumes. Como dizia o intelectual sergipano Tobias Barreto, “as tradições são o passado que se faz presente e tem a virtude de se fazer futuro”. Padre Conceição participou ativamente da história de Chorrochó e viveu essas tradições. Nas litanias e procissões que se realizavam, era o destaque, paramentos brancos, como uma flor de lírio. Recordo de sua adoração fervorosa ao Santíssimo Sacramento. Interpretava magistralmente a fé.

                Nascido em 09.09.1914, no município baiano de Conceição de Almeida, faleceu em 26.01.1986 em Chorrochó, torrão ao qual vinha se dedicando desde o meado da década de 1950, primeiro espontaneamente, depois na condição de vigário da Paróquia do Senhor do Bonfim de Chorrochó, que ajudou a ser realidade e que foi criada em 27.01.1985. Uma acertada decisão da diocese em favor de Chorrochó.

                Vinha de caminho longamente trilhado. Professor do Colégio Padre Antonio Vieira, em Salvador, certamente lá deixou fincada a eloqüência de seus ensinamentos. Eloqüência que talvez tivesse origem no sermão que o próprio padre Vieira pregou em maio de 1640 na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, quando os holandeses apertavam o cerco à cidade da Bahia. As ações do padre Conceição e as palavras do padre Vieira guardam incrível semelhança: a intensidade da fé.

                A opção pelo sertão sofrido foi uma de suas qualidades de pastor humilde. Ter-lhe-ia sido fácil ficar na cidade grande, onde a comodidade das estruturas de vida e trabalho seria mais favorável. Não o fez. Preferiu Chorrochó, onde outro pastor andante, Antonio Conselheiro, no final do século XIX, edificou a primeira igreja até hoje existente, que resistiu ao implacável passar dos anos e às intempéries.

                 O beato Conselheiro foi fixar-se nas fraldas das serras contíguas ao Vaza-Barris, onde em 13.06.1893 fundou Belo Monte, hoje Canudos, para ali construir uma sociedade supostamente igualitária. Chorrochó, como outras localidades do sertão, ergueu-se sobre o pedestal da fé e perdurou. Canudos foi destruído pela crueldade dos homens.

                Padre Conceição sempre foi atento aos pequenos nadas de que se compõe a vida, um homem de personalidade marcante. Substituiu-o na igreja de Chorrochó, outro religioso dinâmico, ativo e muito dedicado à obra de Cristo: padre Mariano Pietro Brentan, um italiano trabalhador e dedicado às causas da igreja.  

              Algumas das tradições da festa de Senhor do Bonfim foram alentadas pelo padre Conceição. Sempre ativo, era um defensor ardoroso da igreja de Chorrochó. 

 

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